A METAMORFOSE FUTEBOLÍSTICA

O desenvolvimento do futebol no Brasil está associado ao rádio e à imprensa, na medida em que se consagraram como  os veículos fundamentais para a sua transformação em um esporte de massa.  Livros,  como o excelente “O Clube como Vontade e Representação. O jornalismo esportivo e a formação  das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro, de Bernardo  Borges Buarque de Hollanda ( Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009 ),   demonstram,  não apenas a importância, mas  também as mudanças  e o impacto de tais veículos sobre os componentes que fazem o  futebol.
  Porém, na Bahia o fenômeno passava à margem dos acadêmicos, até o surgimento dos trabalhos de um jornalista: Paulo Roberto Leandro.  Tarefa difícil, na medida em que o “familiar” exige um necessário distanciamento para a análise, aliado ao perigo de ter sempre ao seu lado, muitas vezes o próprio investigado, um voraz crítico. Na sua dissertação de mestrado, “O Jornalista e o Cartola: o jornalismo esportivo impresso na Bahia e sua resistência ao campo da política” ( Bahia: Faculdade de Comunicação, 2003), ele disseca,  em vários planos, a partir de relevantes fontes históricas,  a participação e o perfil do jornalista esportivo. Se isso já é por demais significativo, ele vai além, inclusive dando “nome aos bois”, ao relacionar o jornalismo aos dirigentes esportivos que buscavam utilizar o futebol para propósitos políticos, os famosos cartolas. Concluindo, mostra que a “bancada da bola” progressivamente perdia a capacidade de pautar o noticiário esportivo, entretanto, não foi  taxativo, tinha uma visão dinâmica, afinal, politico é “bicho tinhoso”. Que o diga a Copa do Mundo em 2014.
    Em 2011, na mesma Faculdade, lá estava o nosso arguto jornalista concluindo o seu doutorado, agora transformado em bela edição da EDUFBA, com o tema “BA-VI: Da Assistência à Torcida. A Metamorfose nas Páginas Esportivas”.  Concentrado nos eternos rivais, ele demonstra que, ambos nascidos das elites baianas, ( com a sigla dos embates, provavelmente emanada do FLA-FLU carioca), são a marca definida da transformação da assistência em torcida nos anos 1930-1940. Com farta documentação, fruto de acurada pesquisa utilizando os diversos jornais de Salvador,  ele irá acompanhar as narrativas sobre as respectivas torcidas, abrangendo o período de 1932 a 2011. Não se esconde nas falsas neutralidades, deixa explícito as suas posições, ou seja, a de jornalista esportivo e a de torcedor do Vitória.  Usando conceitos  como o de habitus, de Norbert Elias, ele irá demonstrar como os integrantes de uma mesma torcida, progressivamente , irão compartilhar uma auto-imagem e motivados,  face à outra torcida, de forma semelhante. E que, esse grupo, ao longo de sua história foi se modificando, se reconhecendo e sendo reconhecido.
Inicia o seu trabalho mostrando como se formou o futebol baiano e a sua sincronia com a formação do jornalismo esportivo, com os donos de jornais percebendo na modalidade esportiva um tema capaz de ampliar as vendas pela receptividade do público. Com a criação da revista Renascença, o famoso fotógrafo Herman Lindemann, já publicava um encarte, na  década de 20, com as fotos dos principais jogadores baianos, como estratégia de marketing e venda. Hilária, para as atuais tecnologias, foi a transmissão por telefone da agência Western,  da partida Bahiano de Tenis e Santos, de Salvador para a cidade praieira paulista. Demonstra também a presença, logo desaparecida, do futebol feminino em 1929.  Destaca que o jornalismo esportivo, além do demérito concedido pelos intelectuais que dominavam os jornais, passou a sofrer na década de 40, a concorrência da mídia instantânea do rádio, em especial através das rádios Sociedade e Excelsior. Tornaram-se famosas as discussões entre os presidentes dos clubes através das rádios.      Com a expansão da cidade  espacial e demograficamente, a extensão do ensino público e privado, ao mesmo tempo que  crescia a massa que apreciava o futebol e o público consumidor de jornais, era inaugurado em 1951, o estádio Otávio Mangabeira, a nossa Fonte Nova, para um público de 40 mil pessoas, ampliado para 85 mil espectadores em 1971.  Em 1953, O Vitória investiu no profissionalismo e conquistou o título de campeão da cidade, fortalecendo a rivalidade com o Bahia. Usando Bourdieu e Foucault, o autor traça um excelente quadro sobre o jornalismo esportivo como um subcampo da imprensa, envolvendo diversas questões em torno do poder.
  Ao abarcar a auto-imagem dos torcedores, utiliza a noção de “consumidade” de Baudrillard, onde o torcedor se assemelha  a uma cópia de outros torcedores, uma retribalização, “onde somos todos replicantes”. Depois, com as concepções de Elias e Dunning,  vê o futebol, e dentro do futebol a torcida, como integrados ao processo civilizador. O futebol assim controla  as emoções bárbaras e propõe o cumprimento de regras “civilizadas”. E, no caso, os jornalistas esportivos devolvem para os torcedores a narrativa que estrutura a torcida, reforçando seus princípios e valores.  Paulo Leandro enfatiza a criação de um tempo próprio para o torcedor, provocando a sensação de pertencimento a um mundo à parte, tendo o mundo do jogo um relógio com um movimento diferente do mundo real.  Avança para o significado simbólico das cores – hoje já quase inexistente – o grito dos torcedores, a diversão com a derrota, com  a morte simbólica do rival, a festa e a gozação nas ruas e bares, a construção dos territórios nos  estádios e nas ruas,  a topofobia tricolor ao Barradão, são aspectos abordados com primor no terceiro capítulo.
  Em seguida, demonstra o “delírio no estádio e a torcida no cotidiano”.  Afirma a catarse aristotélica para indicar como opera a torcida nos estádios, a metamorfose provocado pelo ato de torcer, o delírio nos momentos de comemoração. Mas, embora sem o delírio dos estádios, a euforia, o escoamento das emoções represadas no cotidiano, o prazer de vencer leva a torcida a continuar a animação após os jogos.  Ao vencedor tudo: o grito, os abraços, o chiste com os adversários; ao derrotado, a morte simbólica, a humilhação, a tristeza sem fim. Resta apenas a esperança da ressurreição no futuro embate.  Continuando a abordar a torcida, Leandro enfatiza que ela está ligada a componentes que vão além dela, o clube, a família, os amigos, um ente coletivo que busca o algo mais a cada confronto, uma comunidade simbólica, que tem sua origem fora, antes e acima dela própria.  Interessante é a primazia – sendo ele Vitória – que concede ao Bahia, na sua condição do “Estado da Bahia de Chuteiras”, a idéia de nação, o hino ufanista, da exaltação, o perfil alegre do Bahia  e a crença inabalável no triunfo. A partir daí mostra as fontes de emoção da torcida, a sua integração no cotidiano da cidade, o novo estádio ( Fonte Nova) como ponto de encontro dos torcedores, as relações com a mercantilização e a importância da imprensa em relação ao consumo, a torcida como cliente da imprensa especializada, o tratamento gráfico em muito melhorado e a institucionalização de princípios de clareza e simplicidade na estilística, arrebanhando torcedores entre o potencial público leitor.
Embora não explore mais o assunto, não esquece da importância dos líderes das torcidas, salienta o significado da renda ( público) como capital simbólico da torcida, a torcida como sujeito sobremodo na pressão à arbitragem, o jogador ídolo como referência do time para a torcia.
  Conclui o seu livro, questionando as novas metamorfoses dos espectadores dos estádios, sobretudo com o modelo ARENA: “O futebol que nasceu na elite, voltará a ser um brinquedo das classes mais abastadas?”
Imperdível, para cada vez mais conhecermos a formação dos diversos componentes que fazem o futebol. Parabéns à EDUFBA, que dá prosseguimento a sua coleção Isto é Futebol e a Paulo Leandro por sua bela obra.

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