segunda-feira, 9 de outubro de 2017

NOTÍCIAS DA PROVÍNCIA


                               Voduns na África e no  Brasil: a Serpente e o Leopardo

            Tenho acompanhado a brilhante produção acadêmica de Nicolau Parés. O considero um dos expoentes dos estudos sobre a presença “brasileira” na África e dos africanos e seus descendentes na Bahia. A publicação do livro A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia ( Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007 ) constitui-se em abordagem singular da história dos jejes na Bahia, antes apenas conhecida de forma fragmentada e assistemática. Entre tantos outros, dois aspectos ganharam para mim saliência: 1) a predominância numérica dos gbe falates entre 1740 até 1820 na Bahia; 2) a precedência jeje na formação conventual, com a presença de vários deuses em uma só “casa”. Isso sem contar o entrelaçamento das “casas” do Recôncavo com as de Salvador na formação do candomblé jeje na Bahia.
            Vejo o seu novo livro O Rei, o Pai e a Morte. A religião vodum na antiga Costa dos Escravos na África Ocidental ( São Paulo: Companhia das Letras, 2016 como uma continuidade e ampliação do livro anterior. Não é um livro difícil de ser lido, difícil é, para leigos sobre África como eu, ter uma visão crítica e até mesmo, nos pequenos comentários que aqui faço sobre diferenciados trabalhos, expor a riqueza do conteúdo e complexidade dos assuntos abordados. Com certeza, pela sua importância isso será feito, pela sua importância, por expoentes qualificados para tal.
            Começa com uma viagem à África, versando sobre a interrelação da história política, econômica e religiosa dos reinos de Aladá, Uidá e Benin. Múltiplos processos são analisados, desde a família, o chefe –sacerdote e o rei-deus, assim como os ritos funerários. Em seguida, mostra a correlação entre os processos de centralização política e o estabelecimento de cultos extra-domésticos, ou seja, a Serpente em Uidá e o Leopardo no Daomé. E será em torno do Daomé que nos apresentará os seus costumes vinculados ao campo religioso e suas transformações. Aí passa ao contraponto contemporâneo, nas suas palavras, mostrando as cerimônias Neshue iniciadas pelos rituais dos tohosu (literalmente rei das águas), relacionadas com a memória política. Iremos encontrar, de acordo, com Parés, na Casa das Minas, no Maranhão, a estrutura da iniciação característica do culto Nesuhe, com inteira correspondência com a praticada na África. Como não poderia deixar de existir, dedica um capítulo à economia do religioso e a escravidão. Além de fazer uma reflexão sobre a economia dessas sociedades, demonstra o impacto da atividade mercantil do tráfico de escravos com  as transações religiosas. Conclui, demonstrando os desdobramentos atlânticos, diálogos e reconfigurações. Enfim, ele atinge o seu propósito básico: mostrar as conexões históricas entre a Costa dos Escravos e o Brasil, em especial na Bahia e no Maranhão.
            Pesquisa de décadas, onde, além de vasta documentação primária – em arquivos de várias partes do mundo - e adequada bibliografia, alinha-se o trabalho de campo, por vários anos no Benin e no Brasil, o que lhe permitiu uma ampla compreensão da religião vodum. Modesto, típico de sua personalidade no âmbito público, termina o seu livro, afirmando a incompletude do seu trabalho, indicando a necessidade de novas pesquisas. Espera, entretanto, que nas suas mais de 400 páginas, possa trazer subsídios para o entendimento da formação da cultura religiosa afro-brasileira. Com certeza, conseguiu, e com sobras.
            Fiquei também muito contente com o belo trabalho de sua discípula, Lia Dias Laranjeira, abordando O culto da Serpente no reino de Uidá. Um estudo da literatura de viagem europeia. Séculos XVII e XVIII ( Salvador: EDUFBA, 2015). Trabalho complexo, na medida em que teve de traduzir os viajantes – do francês e inglês – para o português, o que implicou em minuciosa análise textual. Deve ser ainda ressaltado que grande parte da bibliografia utilizada estava em língua estrangeira. Saliento isso, porque sendo seu livro fruto de uma dissertação de Mestrado, espaço onde a maioria dos mestrandos – e mesmo doutorandos – tem grande dificuldade com a leitura em língua que não a portuguesa.
            Já no início do prefácio, Parés indica que a cidade de Uidá, na atual República do Benin, apresenta grande interesse internacional. E uma das atrações mais visitadas, noseu centro urbano, é o templo da Serpente Dangbe, emblema local da religião do vodum. Voltemos a Lia Laranjeira. O seu trabalho, de natureza historiográfica, temporalmente abarca de 1660 até 1727, quando Uidá foi conquistado pelo reino do Daomé. Se, por um lado, é exigida uma perspectiva crítica sobre o eurocentrismo da narrativa dos viajantes, com exageros que aproximam sua escrita da ficção, por outro, é inegável, mostra a autora, existem elementos documentais que a aproximam da fonte histórica.

            Nos dois primeiros capítulos, Lia, analisa o reino de Uidá na literatura europeia, enfocando os primeiros contatos e instalações dos europeus na costa ocidental da África; assim como enfatiza a importância de Uidá no campo da exploração mercantil, em especial no tráfico de escravos. Em seguida, traça uma pequena biografia dos viajantes e o caráter de sua produção literária. Nos restantes capítulos, há uma concentração, em diferentes âmbitos, sobre a Serpente. Desvendando a expressão fetiche, apresenta as práticas religiosas de Uidá, destacando o protagonismo de Dangbe. Segue, como toda boa pesquisadora, desconfiando dos dados, pois sente a explícita intenção de mostrar uma África imoral e exótica, ao abordarem as oferendas à Serpente e as interdições no culto à Serpente. Conclui, abordando a visão sobre o feminino tendo por base os ritos iniciáticos.  A partir das narrativas, percebe que ali era um espaço de poder das mulheres, na medida em que somente elas incorporavam a divindade, através da possessão. Como diz Nicolau Parés, por mim reiterado, o livro fornece uma preciosa janela para compreender o período formativo das relações atlânticas da África Ocidental. Uma jovem brilhante, que, com certeza, muito mais irá nos oferecer. E, com qualidade.    

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O Quilombo está na Mesa

                Eduardo Alfredo Morais Guimarães é o autor da tese de Doutorado, O Quilombo está na Mesa: estudo etnográfico da comunidade quilombola de Empata Viagem, município de Maraú/Bahia, realizada na Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia. É uma tese que se situa entre o campo da Antropologia Política e da Antropologia da Alimentação, fruto de amplo trabalho de campo. É uma pesquisa onde a sua identificação com os quilombolas, é um plano nítido do papel que assume em Empata Viagem e circunvizinhanças. Daí, a presença visível na sua escrita, dos hóspedes não-convidados, segundo Da Matta, ou seja, a emoção e o sentimento. O que aliás condiz com a sua militância ecológica e política.
          Como ele próprio afirma, a centralidade da pesquisa foi compreender as interfaces entre cacau, mandioca, commodity, abastecimento alimentar  e a mesa dos quilombolas. Fica explicito desde o início as suas posições teóricas e políticas, na reação ao mito de uma aristocracia agrária empreendedora, que teria construído sua riqueza sem a presença do trabalho escravo. Mas, se ele mostra o passado é porque existe uma complexa inter-relação com a sua luta atual contra o  avanço  do agronegócio e da “modernidade” técnica nas terras quilombolas.
    Historicamente, antes do cacau, a região se firmou como resultado da pressão da empresa colonial portuguesa para a expansão da produção de farinha, transformada em mercadoria para servir o mercado interno ou mesmo, apesar das proibições, para atender o tráfico atlântico. Elemento da culinária indígena, transformou-se também em alimento imprescindível ao abastecimento alimentar dos africanos e crioulos, sendo por sua incorporação ao paladar local  um marco definidor de fronteiras, um traço diacrítico da sua lógica cultural.     
          Faz história e da boa, ao mostrar  de forma crítica, o percurso para a construção da “nova” identidade quilombola, que abala quadros de referências que davam aos indivíduos uma ancoragem estável. Daí, ser essa identidade aberta, inacabada e contraditória. Não  aparece como novidade, uma vez que os próprios sujeitos apresentam variações intra- individuais, marcadas pela heterogeneidade, como salienta Lahire.  Enfim, as identidades são sempre dinâmicas e constituídas historicamente.
     Avança para demonstrar o seu conhecimento técnico sobre o sistema agrícola nas suas diferentes formas. Segundo Guimarães, nas Agroflorestas de quase tudo, os habitantes locais, simplificando, cultivam a mandioca- o produto fundamental – mas também o cacau, consorciados com hortaliças, cereais, espécies frutíferas nativas e exóticas, centenas de espécies de vegetais e animais: a diversidade é a sua base de sustentação. Esse mosaico permite e promove a biodiversidade, promove a segurança alimentar e nutricional, além de garantir um aumento na produtividade do cacaual.
                 Contrapondo-se a essa formulação, como veremos adiante, o autor remete  especificamente à história do cacau, que a partir do final século XVIII, torna-se o grande referencial histórico-cultural da região Sul da Bahia, com grandes empreendimentos agrícolas que contaram com mão de obra escravizada africana e indígena. Sem entrar nos detalhes, o que ficou foi a presença do Brasil, já no final do século XIX, como um dos maiores exportadores de cacau do mundo. No século XX, aparece o projeto de “Conservação Produtiva”, desenvolvido com a participação de técnicos da CEPLAC, baseado no plantio do cacau em cabrucas. Segundo os defensores do projeto, uma verdadeira revolução ambiental, com os cacaueiros cultivados sob a sombra das árvores nativas da Mata Atlântica: o Sistema Agroflorestal Cacau Cabruca. Guimarães desmonta ponto por ponto os seus elementos básicos: não há interação entre os elementos que compõem o sistema; roçadas periódicas mantem a regeneração natural em níveis baixos; as limitações do modelo monocultural da agricultura de exportação, tornam uma falácia atribuir ao Cacau Cabruca o mérito de manter a Mata Atlântica e sua diversidade; a exigência de quantidades cada vez maiores de água e adubação, e mesmo de pesticidas e fungicidas para se proteger de inimigos que ele mesmo está destinado a atrair. Não demorou a aparecerem as crises, devido aos preços no mercado internacional, a baixa produtividade, os custos elevados de produção e a ausência de tecnologias adequadas de cultivo. E, para completar veio a epidemia da Vassoura de Bruxa.   
      O terceiro sistema é um produto do CEPEC, um centro de pesquisas responsável pela criação de uma “tecnologia agrícola de Primeiro Mundo”, sendo os seus resultados disseminados pela CEPLAC, a partir de 1964. Com seus percalços, seria lançada em 1974, a  Revolução Verde, que chegou efetivamente ao quilombo. E foi uma revolução mesmo, na medida em que ampliou a cobiça sobre as terras quilombolas, mas também, aparentemente, abriu novas perspectivas para as famílias agricultoras que se dedicavam basicamente ao cultivo da mandioca. Como salienta o autor, tal revolução possibilitou que o cacau, até então confinado aos boqueirões e às margens dos córregos passasse a ser cultivado também em “terras de mandioca”, solos secos, pobres e ácidos. Assim, as novas tecnologias proporcionaram a valorização das terras do quilombo, tornando-as cada vez mais  alvo da cobiça de grandes empresas agrícolas, além de aumentarem, de  maneira exponencial, a dependência das famílias quilombolas dos insumos agrícolas atrelados ao pacote tecnológico desenvolvido pelo CEPEC: fertilizantes industriais e agrotóxicos, cotados em dólar. Ressalta ainda que, no contexto da expansão dos cultivos de cacau, outras monoculturas de exportação, passaram também a compor o mosaico de paisagens locais, especificamente a seringueira e a macadâmia, uma noz de origem australiana.      
                Será nesse cenário, de confronto e desdobramentos, que aparecerão, com realce, os seus protagonistas, os quilombolas. E será com gente de “carne, osso e sangue correndo nas veias”, que Eduardo nos mostrará a exploração, a grilagem, as trapaças, a assimilação de uns poucos quilombolas, mas, com ênfase a luta de um povo para sobreviver diante da modernidade e das forças de opressão, resistindo para manter sua lógica cultural. Assim, passando por cima de muita coisa, chegamos ao quilombo na mesa.
                Em Empata Viagem, de forma geral, a alimentação aparece em três espaços: 1) a cozinha moderna no interior da casa, onde aparece o fogão a gás, o liquidificador e a geladeira. Eu diria que são marcas de distinção, antes que elementos utilitários no cotidiano. O fogão a gás e o liquidificador, somente são usados em situações especiais. A geladeira é o eletrodoméstico mais importante para o grupo familiar. Ela é uma espécie de “caixa mágica”, pela mudança no design das casas, pela conservação de alimentos e pela água gelada. Porém, poucos produtos ficam na geladeira, sua grande função está na transformação da água natural em gelada ou gelo; além disso, ela conserva um novo elemento presente na culinária local: o suco artificial; 2) a cozinha do fogão a lenha, situada em um cômodo à parte, fora do corpo principal da casa. Nela, o fogo nunca se apaga e é “onde se faz quase tudo”. Ela é a despensa, onde se cozinha os alimentos, onde se come e onde as pessoas passam a maior parte do tempo. Como o ritmo da cozinha é ditado ela rotina da roça e dinâmica da vida familiar, o “de comer” está pronto desde as primeiras horas da manhã. Assim as refeições se sucedem ao longo de todo dia e em qualquer lugar que o comedor deseje. A “mesa” está em qualquer lugar. Quando o pesquisador chegava era sempre agraciado com um pedaço de carne de porco, de paca, de caititu, de galinha caipira, de tatu assado na brasa,  acompanhados  invariavelmente por farinha ou farofa d´água. Essa é a comida em geral, que poderíamos chamar, em nosso termos, de almoço ou jantar. Digo isso porque não deixa de haver um desjejum ou café da manhã, ou seja, o café preto, sem leite, a banana cozida, o inhame, a batata doce,  o aipim, e o beiju da massa da mandioca, tudo tirado da roça. Mas, isso não impedia a presença do biscoito Poca Zói, e em situações especiais o biscoito Cream Cracker. O pão, que não é feito pelos moradores, é considerado uma bela iguaria, comprado aos sábados na feira. Ele é tão importante que muitas vezes eles são o presente de visitantes. Há ainda uma profusão de frutas, como laranjas, tangerinas, jacas, jabuticabas, ingás, goiabas, cajás, jambos, “mel de cacau”, cajus, amêndoas de sapucaia e uma infinidade de vegetais importantes no abastecimento alimentar. As frutas são comidas pelas crianças a qualquer hora, e no intervalo das jornadas de trabalho, pelos adultos. As riquezas da flora e da fauna não são vistas como mercadorias, mas sim como elementos fundamentais para o abastecimento familiar, além da sua condição de dádiva, circulando entre os vizinhos, pautadas na troca generosa e solidária. Como diz o autor, são “coisas que não se planta e só se desfruta”, longe dos anseios do mercado, sempre uma apropriação em pequena escala dos recursos naturais. 3) a casa de farinha, local onde é processada a mandioca e produzida a “farinha do prato” - o alimento de base do quilombo – e ao beiju. Que vão também ao mercado.
                Do começo ao fim do trabalho, fica explicita a inquietação do autor com a invasão das terras quilombolas, pelo cacau e outras commodities, amparada pelo poder local ou internacional. Isso gera a diminuição do cultivo da mandioca, entretanto, fica patente a resistência cultural do Empata Viagem, o lugar dos descendentes da Velha Honória e “onde tudo era mandioca”. Um confronto se estabelece, de um lado, a mesa antropofágica do mercado de cacau e “de quase nada”. E, por outro lado, a mesa quilombola da farinha de mandioca e “do quase tudo”.  Outro aspecto que poderia assustar os puristas ou arautos da autenticidade, é a presença de inovações tecnológicas, quando na realidade, eles não querem abrir mão desses produtos, pois não vivem no passado. Como diz Sahlins, ao demonstrar a importância da cultura, é que eles querem utilizá-las para seus próprios fins, mantendo uma indigenização da modernidade. Por que não?
                Um trabalho provocativo, com larga documentação fotográfica, onde o autor nos conduz a pensar sobre os rumos dos quilombolas e do campesinato brasileiro. E, para concluir, uma questão ficará no ar: qual o impacto na realidade observada com a atual industrialização do cacau na própria região, no Sul da Bahia?         


             

quarta-feira, 28 de junho de 2017

OS CHINESES ESTÃO CHEGANDO: A COMIDA EM SALVADOR


  Uma das características da formação histórico-social da Bahia foi a ausência de grandes fluxos migratórios internacionais. Talvez isso tenha uma conexão com a parca bibliografia sobre a temática. Mas, pensar dessa forma, seria não entender os diversos vetores, sobretudo os “podres poderes” de grupos na Academia e as linhas de financiamento, que imprimem valor a determinadas temáticas. O produzido sobre os estrangeiros não é vasto, mas existe, pois alguns grupos, apesar do seu escasso impacto demográfico, sempre tiveram repercussão econômica e social sobre a vida dos baianos, em especial na cidade de Salvador, no antigo Recôncavo e interior do estado. Ingleses, alemães, portugueses, espanhóis (galegos), japoneses, italianos, fizeram e fazem parte da nossa baianidade.
   Os chineses se constituem em um caso à parte, na medida em que apenas uns poucos começaram a chegar em Salvador a partir da década de 60 do século XX. Entretanto, a partir do século XXI ocorreu, de certa forma, um fenômeno inesperado: uma “invasão” chinesa no centro comercial antigo da “cidade alta”.  Portanto, foi com alegria que recebi a tese de Ana Claudia de Sá Teles Minnaert, denominada O Dendê no Wok[1]: um olhar antropológico sobre a comida chinesa em Salvador, realizada na Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia. Alegria, pela saudável convivência como seu orientador, assim como pelos resultados do seu trabalho.
  Começa com a utilização de ampla e atualizada bibliografia, majoritariamente internacional, esboçando uma história da China e a sua conexão com a alimentação. Após, concede ênfase aos processos migratórios e a especificidade das diversas diásporas chinesas, assim como as variadas adaptações em torno das suas cozinhas. Ganha realce no caso em questão, o seu trabalho de campo no Peru, onde se localiza o grande Barrio Chino, provavelmente o segundo maior bairro chinês das Américas, superado apenas por Nova York, embora as chifas[2], estejam espalhadas por toda a cidade de Lima. Fundamental, do ponto de vista comparativo com Salvador, na medida em que é uma chinatown, marcando a sua chinesidade, além de ter uma culinária mesclada com a peruana.
  Na sua abordagem da  presença chinesa em Salvador, aponta as transformações urbanísticas e desvalorização da “cidade alta”, local que viria ser ocupado pelos chineses, mas de forma esparsa, longe do conceito de chinatown.  Originários em sua maioria da República Popular da China, em especial de Cantão, seguidos pelos imigrantes de Taiwan, sendo os vindos de Hong Kong o grupo minoritário. Embora a Policia Federal aponte a presença em Salvador de 392 chineses, eles são numericamente muito mais, por variados motivos. A autora esboça um quadro da composição do grupo: família, gênero, gerações e tantos outros aspectos da presença dos chineses em Salvador.
   Após, aborda a presença da comida chinesa em Salvador, os primeiros restaurantes  na cidade, a partir da década de 60 no século 20, e as flagrantes distinções em relação aos restaurantes que os chineses abriram no centro da cidade. Esta segunda geração que em grande parte chega após 1980, por variados motivos, optaram pelos restaurantes populares de comida a peso, com o predomínio da cozinha local. Muito mais que manter sua chinesidade, viram os negócios na área de alimentação como uma alternativa para  ascender economicamente. Já os tradicionais restaurantes chineses, os pouco que se mantiveram, com a concorrência japonesa, passaram a dizer-se asiáticos ou orientais, servindo também comida japonesa. Na realidade, a tentativa de se manter a cozinha chinesa se dá no âmbito da família, sendo uma marca da sua identidade. Dizem que a sua comida é no  jantar, onde há a soja, o arroz, os vegetais ao vapor ou salteados no wok, temperados com gengibre, alho, molho de soja, Ajinomoto ou pasta de feijão. Porém, até quando essa cozinha se manterá é uma incógnita, na medida em que muitos jovens já tem preferência pela cozinha local. Enfim, é o dendê entrando no wok.
  Muito pouco disse sobre a tese de Ana Claudia, mas espero que seja uma sugestão para futuros leitores conhecerem um pouco da história da China, da sua comida e dos seus desdobramentos em Salvador. Espero que, com adaptações, cedo se transforme em livro. E com todo merecimento.           



[1] É um tacho ou panela considerado utensilio básico da culinária asiática.
[2] Restaurante especializado na preparação de comidas chinesas. A sua tradução seria “comer arroz”.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

COMIDA E MEMÓRIA OU COMENDO COM OS GREGOS EM KALYMNOS

      Já há algum tempo li um livro que gostei muito tratando de comida e memória. Pensei em fazer uma resenha, mas o tempo foi passando e outras obrigações impediram-me a realização de tal feito. Agora, resolvi fazer algumas anotações sobre o exemplar, denominado Remembrance of Repasts. An Anthropology of Food and Memory  (Oxford-New York: Berg, 2001 ), de David Sutton. O livro é uma extensão do trabalho de pesquisa realizado pelo autor na ilha de Kalymnos, na Grécia, em 1998. Tem início com uma introdução denominada Uma antropologia Proustiana?, seguida dos capítulos: O ritual e o cotidiano; Lembrando de presentes, esquecendo de mercadorias?; Memória sensorial e a construção de mundos; Refeições memoráveis; Fazendo/Lendo o cozinhar e a conclusão intitulada Recapturando a refeição.
     O trabalho na sua Introdução faz uma revisão crítica da questão da comida e da memória, utilizando-se de autores que renovam os paradigmas vigentes, vendo a forma que as sociedades dividem os trabalhos sobre os sentidos diferencialmente, “fazem o sentido do mundo”, criticando o bias visualista que tem dominado as sociedades ocidentais. Sutton estabelece que, em momentos de revitalização da memória de migrantes gregos, quando o passado torna-se presente, e em fases de lembrança prospectiva, quando o futuro emerge com o passado, ou mesmo na cozinha nostálgica, em que a comida processada é recolocada como uma refeição imaginária, “realmente real”, a comida oferece alguns dos maiores pontos de pontos de entrada no quotidiano dentro da experiência de mistura de temporalidades.
     Nos dois primeiros capítulos, o tópico da generosidade com a comida, implica na abordagem da interessante questão teórica concernente à memória e a troca. A comida internaliza débitos e  os repetidos atos de generosidade geram amizades e memorável reputação em Kalymnos. Uma preocupação atravessa o livro: o aumento do fluxo internacional de alimentos e as pessoas que os comem, e o que a globalização pode significar para a mudança das praticas da memória da comida. Se uma das questões importantes da antropologia é como a globalização reconfigura identidades e experiências, a memória da comida nos oferece numerosos pontos de entrada nesse tópico. Exemplificando, o autor diz que produtos locais tornam-se parte de circuitos globais de troca entre a “casa” e a vida de migrantes transnacionais; enquanto produtos estrangeiros, como o queijo Roquefort, são identificados como componentes das especialidades dos kalyminianos e parte das relações sociais locais, como quando um homem usa esta mercadoria como um protesto contra a qualidade do queijo produzido pelos vizinhos.
     Um antropologia atenta à experiência sensorial, como diz o autor, tem muito a nos dizer  sobre o evocativo poder da memoria da comida, ao mesmo tempo que desafia a estrita dependência à interpretação simbólica ou semiótica. Memórias do gosto e do cheiro, por sua natureza tenderão a ser idiossincráticas, associadas ao acaso, como oposta aos símbolos que podem ser mais cognitivamente coletivos. Mas, isto não significa que a memória do gosto e do cheiro não são iluminadas por campos associativos, em que eles são aprendidos e experimentados, consoante a geração, o gênero, a classe e a etnia.
     Adiante, ele aborda diferentes perspectivas recorrendo à “mesmidade” e à diferença, a continuidade e a mudança, o oral e o escrito, a tradição e a modernidade, em relação à estrutura das refeições e o processo de aprender/fazer comida. Comparando e contrastando sua etnografia dos kalyminianos com as pesquisas feitas nos USA, David Sutton ressalta a produtividade da noção de memória e que existem muitas diferentes formas estruturadas culturalmente em termos de práticas de alimentação, refletindo diferentes consciências históricas. Ele argui contra o uso simplório da dicotomia de “comunidades tradicionais fechadas” e “sociedades, abertas, modernas”; antes, ele tem tentado mostrar a extensão de “seguir a tradição”,  envolve escolhas, reflexões e variações. E também demonstrar que a extensão de “fazer sua própria escolha” significa uma prescrição culturalmente imposta, com implicações para a espécie de  memória da comida que será reproduzida na sociedade, sob a persuasão de uma ideologia da modernidade.
     Mordaz, traz à consideração a “mercantilização da nostalgia”, parte da estratégia de festivais étnicos, que muitas vezes tem a sua gênese na economia. Não esquece da “memória da fome” entre os kalyminianos durante a Segunda Guerra Mundial. De forma provocativa, ele percebe o desdém para o passado culinário na cultura popular dos USA. Então, esquecer é um problema, que implica em análise, daí levantar a questão: pode haver um papel produtivo para o esquecimento das comidas do passado?
        Muito mais ele analisa e problematiza; concluindo coma necessidade de mais etnografias, que comecem da premissa que comida não é simplesmente outro tópico que “simboliza” identidades, mas um campo que nos desafia repensar nossos métodos, concepções e teorias em novas e produtivas formas.

         Quando comecei disse que já havia lido há tempos o livro de David Sutton, daí que escrever sobre o mesmo foi provocado pelo excelente artigo de Ellen Woortmann, Memória Alimentar: prescrições e proscrições, no livro Ensaios sobre a Antropologia da alimentação: saberes, dinâmicas e patrimônios, organizado pela própria Ellen e Júlia Cavignac, sendo editado pela ABA Publicações e Edufrn, 2016, PDF; 12 MB.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

NOTÍCIAS DA PROVÍNCIA

Hoje, eu faço homenagem a um  grande profissional, professor titular da UFBA, responsável pela formação de  varias gerações de historiadores. João José Reis, dispensa comentários sobre a sua produção, grande parte dela publicada internacionalmente, é o Coordenador do grupo/linha de pesquisa Escravidão e Invenção da Liberdade, de onde emergiram dezenas de mestres e doutores, sendo grande parte dessa produção publicada. O seu Programa congrega os grandes nomes da historiografia baiana, além da interrelação com os grandes programas e cientistas nacionais e internacionais. Aqui, falo de outra grande contribuição de João Reis, a sua condição de editor da revista Afro-Ásia, do Centro de Estudos Afro-Orientais, a mais antiga da América Latina, criada em 1965, a se dedicar a assuntos africanos, afro-diaspóricos e asiáticos. A partir de 1995, assumiu a edição da revista, publicando autores locais e nacionais, e atraindo o que de melhor existia no campo internacional. Tornou-a – adicionando ao já feito – uma revista indispensável a todos que se interessam pela temática. Na sua viagem à Alemanha, em Berlim, passou trabalhando sobre a Afro-Ásia, em conjunto com Carlos da Silva Jr.  Aí , explorou um dos âmbitos da Afro-Ásia, pois embora já não seja seu editor geral, continua assessorando a sua publicação e tratando das resenhas. Vamos ao realizado.
  Atlântico de Dor. Faces do Tráfico de Escravos ( Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino Traço, 2016 ), é uma coletânea organizada por João José Reis e Carlos da Silva Jr., com a trabalhosa revisão dos textos, numa parceria do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Recôncavo com a Fino Traço Editora. Os textos reunidos foram publicados na revista Afro-Ásia, até 2015, quando alcançou 50 números. Os organizadores, escreveram uma consistente introdução, denominada Decompondo o Tráfico, dividindo a obra em seis partes: 1. O Atlântico escravista: açúcar, escravos e engenhos; 2. O tráfico proibido; 3. Dilemas do africano livre; 4. Tráfico interno; 5. África do tráfico; 6. Diásporas daqui e de lá.
Apenas para situar, ali estão Joseph Miller, Ubiratan Castro de Araújo, Beatriz Mamigonian, Richard Graham, Erivaldo Neves, José Curto, Maria Inês Côrtes de Oliveira, Renato da Silveira, Dale Graden, Michael Turner,  Robin Law e tantos outros, com a mesma qualidade e importância dos citados. Enfim, aparecem nas mais de 700 páginas, o que de melhor foi realizado sobre o tema nas últimas décadas.

A revista continua viva, sob a competente editoria de Jocélio Teles dos Santos e Wlamira Albuquerque, sendo João José Reis, o editor das resenhas. Está toda digitalizada, gratuita, podendo ser consultada através do site www.ceao.ufba.br           

quinta-feira, 27 de abril de 2017

UMA HISTÓRIA SABOROSA DO MUNDO

           Quando comprei o livro “Uma História Saborosa do Mundo. Dez milênios de globalização” ( Portugal: Casa das Letras, 2008 ), o fiz mais por curiosidade, já pensando ser mais uma dessas obras enciclopédicas, rasas e repleta de exotismos, sem maior significado.  Tampouco conhecia o autor. Errei redondamente. Santa ignorância! Primeiro, o autor é altamente qualificado, com vasta produção em áreas como escravidão, história das doenças, alimentação e nutrição. Quando escreveu o livro, era professor catedrático na Universidade Estatal de Bowling Green. Foi o organizador da obra, em dois volumes, The Cambridge World  History of Food, sendo o livro aqui apresentado baseado nela. Ao contrário do que pensei inicialmente, é um livro denso, consistente, indispensável para quem tem interesse em alimentação.
           A apresentação já nos oferece uma visão geral da pretensão do autor: uma perspectiva da globalização dos alimentos, desde os dias dos caçadores-coletores até aos atuais produtos transgênicos, de origem animal e vegetal. Caminhamos, após os caçadores-coletores, com a institucionalização da agricultura e a domesticação dos animais, e a consequente difusão das culturas agrícolas em varias partes do mundo. Após, concentra-se no “intercâmbio de Colombo”, com trocas de plantas e animais, que revolucionaram a demografia de todos os cantos do mundo. E nos últimos capítulos, é abordado o impacto da industrialização, no processamento e distribuição dos alimentos; concluindo com os problemas atuais relacionados com a alimentação, desde a fome à obesidade, passando pelo impacto da biotecnologia alimentar e da indústria de comida rápida. Uma boa apresentação, sintética, mas que oferece um quadro geral do que espera o leitor.
           São 27 capítulos, envolvendo desde: os últimos caçadores e os primeiros agricultores; os animais e as plantas das diversas partes do mundo; as consequências do Neolítico, as empresas e os impérios; o Novo Mundo e seus alimentos; o intercâmbio de Colombo e suas trocas com os Velhos e Novos Mundos; o açúcar e as novas bebidas; o imperialismo ibérico e a abundância no paraíso; as fronteiras dos alimentos estrangeiros; capitalismo, colonialismo e culinária; noções de nutrientes e nutrição; globalização e as escolhas da abundância; comida rápida: um hino à celulite; nós e a fome e abundância que nos ameaça.
           É um livro indispensável para cursos de Antropologia, Nutrição, Saúde e Gastronomia, por abarcar temáticas variadas, sem cair no senso comum ou nos achismos. E esperar que a nossa indústria editorial não demore para a tradução completa da obra de Cambridge.    

segunda-feira, 24 de abril de 2017

ENCONTROS ETNOGRÁFICOS SOBRE ALIMENTAÇÃO II

Dou continuidade a artigos da coletânea organizada por Leo Coleman. Food.Ethnographic Encounters. London-UK/New York,-USA: Berg, 2011.

Claire Nicholas. Cuidado fora da cozinha: cozinha e poder em uma residência marroquina.
É um estudo sobre uma cooperativa de tecelãs e suas famílias.  A autora viveu em uma família chefiada por uma mulher, sendo ela e sua filha mais velha tecelãs; já os afazeres domésticos eram de competência da filha mais jovem. No aspecto concernente à comensalidade, existia uma divisão equitativa. Porém, o fundamental no artigo é a discussão levantada por Nicholas sobre a sua condição como observadora-participante. Ela vivia na casa, pagando pelo abrigo e pelas refeições. Eis os problemas. A apropriação da pesquisadora pela chefe de família, inclusive restringindo as suas relações com as mulheres das outras famílias. A comida aparece em duas situações, gerando constrangimento: 1) a tentativa de inovar o cardápio; 2) quando doente, comprou granola. O que se explicita é a dificuldade de uma pesquisadora americana, considerada rica, pagando pouco e com uma pesquisa ininteligível. E a frustação da pesquisada sobre os possíveis benefícios que adviriam da “estrangeira”.

Kathleen C. Riley. Aprendendo a trocar palavras por comidas no Marrocos   
Trabalho de campo nas ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. A autora buscava estudar a socialização pela linguagem para a obtenção de alimentos. Segundo ela, quando somos crianças, a socialização pela linguagem envolve, primeiro, o aprendizado de como trocamos sons por comida, e, após, comida por palavras. E este aprendizado ocorre diferencialmente nas diversas culturas, via diferentes linguagens em todo o mundo. Nas Marquesas se vive basicamente de fruta-pão e peixe, sendo o porco muito apreciado. Ali, as crianças são socializadas no contexto de duas culturas e línguas: a Polinésia indígena e a França colonial. Riley percebe as mudanças pela penetração dos costumes franceses, inclusive a transformação dos ritos de hospitalidade, devido à presença do dinheiro. Ela aponta a dificuldade para entender como as crianças vinham a adquirir comida e, mais ainda, de ser aceita no grupo que pretendia pesquisar. Com persistência, conseguiu finalmente estabelecer uma rede de relações com  as famílias e, em especial, com as crianças. Ela observou que à proporção que as crianças adquiriam competência linguística e conhecimento cultural, elas aprendiam como se engajar no dar e receber comida. Recursos de comunicação, específicos morfemas para instâncias pragmáticas, assinalavam o local e socializavam a compreensão de como alimentos e falas jogavam um papel fundamental na vida em sociedade. Enfim, a autora para realizar a sua pesquisa foi adotada por um membro da comunidade, assim como  também ganhou semi-competência linguística – indispensável para a sua abordagem da realidade.

Leo Coleman. Guia para uma leitura mais adiante.
É uma síntese dos estudos contemporâneos sobre a comida, consoante as variadas temáticas. 1. Comida para pensar; 2. Consumo e política; 3. Fome, desejo e desgosto; 4. Globalização e consumo; 5. Estabilidade e mudança; 6. Substâncias e sentidos.  Tudo isso acompanhado por uma bibliografia atualizada sobre as temáticas propostas.
Muito mais poderia ser dito sobre outros artigos do livro, mas isso fica para o leitor interessado no assunto.