Mulheres de Fibra: o futebol que não nos envergonha.

Para Solange, deusa nos campos e na vida, e Luciano do Vale, que sempre acreditou no futebol das meninas do Brasil.

           Enny Moraes acertou em cheio ao escrever o livro Fazendo Gênero e Jogando Bola. Futebol feminino na Bahia anos 80-90 ( Salvador: Edufba, 2014).  Mínima é a bibliografia sobre o futebol masculino na Bahia. E sobre o futebol feminino, eu diria que ela inexiste. Mesmo a nível nacional são poucos os trabalhos e, em sua maioria, reflexões  abstratas, com um “olhar de fora”  da participação feminina. Este já é um mérito deste trabalho, é um “olhar de dentro”, onde nós sentimos e nos introduzimos na carne e sangue  das mulheres que ousaram ocupar um lugar tido como território dos homens.

          O clássico trabalho de Eduardo Archetti,  “ Masculinidades. Fútbol, tango y polo en  la Argentina” ( Buenos Aires: Editorial Antropofagia, 2003),  assinala historicamente, a partir de vários autores,  uma relação entre nacionalismo e masculinidade, embora já saliente a existência de uma pluralidade de “masculinidades hegemônicas”.  Evidentemente caberia à mulher, como no Brasil, um papel complementar  como mãe, como já assinalou em relação ao Brasil Luiz Tarlei Aragão.  Citando Moses, Archetti, assinala criticamente que as lésbicas, assim como os homossexuais, ameaçariam a divisão entre os sexos, atacando as verdadeiras raízes da sociedade. As lésbicas ainda mais, pelo papel que cumprem as mulheres como santas e mães de família e das nações.

           Evidentemente, as mudanças nas relações entre os sexos tornam tais considerações em desuso, pelo avanço que as mulheres conseguiram em várias áreas, anteriormente reserva dos homens. Entretanto, em nenhum desses campos a mulher conseguiu uma completa equalização. Mais: o processo de mudança nas relações de gênero é mais lento nas classes trabalhadoras, entre os pobres. É o caso do futebol feminino praticado basicamente por mulheres pobres  e sem maior nível de instrução.

          O patriarcalismo, a dominação masculina, ainda imperante, não impediu os avanços da mulher como torcedoras, o avanço na imprensa especializada, a presença  como árbitras e como jogadoras. O futebol, assim como a política, considerados assuntos “sérios” no Brasil, não era visto como um campo para a mulher se expressar. No contexto  futebolistico, o genial e reacionário  Nelson Rodrigues, criou um caso jocoso, mas paradigmático da forma como se via a mulher no futebol: é o da “grãfina de narinas de cadáver”: uma mulher de classe alta que acompanhava o marido nos jogos e perguntava incessantemente “quem era a bola”.  

O preconceito, de forma geral, continua existindo, apesar de algumas mulheres poderem facilmente exercer o cargo  de técnicas de futebol ou pertencerem ao quadro da Fifa, como juízes. O temor que o futebol funcionasse como uma maneira de masculinizar as mulheres, culminou no Decreto-Lei n. 3.199, de 1941, que proibia sua prática por estas, sob a alegação de que o corpo feminino não era adequado para isso.  Até o brilhante e polêmico João Saldanha, disse: O futebol é arte, é paixão, é esporte e até aí tudo bem. Mas também é força. E aí só com sensíveis e radicais modificações biológicas poderíamos misturar”. Na mesma Revista Placar, onde ele se pronunciou, Maria Cristina Duarte respondeu: “É hora, mais uma vez, de se pensar em igualdade, respeitando-se as diferenças, uma das mais nobres batalhas feministas. Também acho muito preconceituoso achar que só mulheres muito másculas são indicadas para este esporte”. Já pensaram o que diria Saldanha vendo Sossó, Formiga, Marta ou Cristiane, com 60 quilos, físico delgado, fazendo com a bola o que só foi permitido aos gênios do futebol.  Somente em 2011, foi criada ano Ministério dos Esportes, uma coordenação, dirigida pela ex-atleta  Michael Jackson, para estabelecer políticas públicas para o futebol feminino no Brasil.

 Apesar de todos os empecilhos, com garra e luta, o futebol feminino é uma realidade, com o permanente  perigo do retrocesso, mas sempre vivo  pelo que já foi construído.  Por exemplo, na Bahia, após as décadas de 1980/1990, surgiu a Seleção de São Francisco do Conde com grandes conquistas. Mas, como no passado aqui visto, parece ter estagnado.

A imprensa, com raras exceções, excetuando nas competições internacionais, as mantém durante o cotidiano na invisibilidade,  por exemplo, não vi uma só publicidade sobre o futebol feminino em relação à Copa do Mundo, as empresas não investem no futebol feminino de forma permanente, os clubes não querem saber do assunto,  e o descaso da CBF é patente. Aliás, jogar o futebol feminino no Ministério dos Esportes é um exemplo da política  da CBF.  Existe já  uma grande disputa por recursos no campo do futebol, afinal os clubes vivem endividados e se a CBF não cuida do futebol masculino, dos campos, dos torcedores, imagine investir no futebol feminino. E as meninas do futebol não tem o status e títulos do voleibol, com polpudos recursos do Banco do Brasil, Petrobrás e outras instituições. Daí, as grandes jogadoras procurarem o caminho do aeroporto: Estados Unidos, Suécia, Noruega e tantos outros países que investem no futebol feminino.       

            As garotas pobres, muitas que passavam fome, débeis fisicamente, estigmatizadas – muitas vezes na própria família – por homens e mulheres, excetuando os ricos futebol masculino e o voleibol, conquistaram mais títulos internacionais que quaisquer outras modalidades coletivas  esportivas no Brasil. Ironia: hoje, muito à frente da seleção masculina de futebol, ocupam o o 3º lugar no ranking da FIFA. Nenhum jogador de futebol brasileiro conseguiu ser tantas vezes o melhor do mundo – 5 vezes – quanto Marta.  Em termos de público, apesar de todo o descaso da CBF, ocupam o terceiro lugar, atrás apenas das milionárias modalidades citadas.  Hoje, amainando o estigma, são idolatradas por homens e mulheres em todo o país.

          Daí a importância do texto de Enny Moraes abordando a formação das jogadoras baianas, em especial em Feira de Santana, mas já tendo uma experiência de trabalho de campo com  jogadoras de futebol de Jequié. E a partir daí, a história do futebol baiano se entrecruza com os primórdios da Seleção Brasileira.  No site da CBF, “as abridoras de caminho”,  as que lutaram para firmar o futebol brasileiro nacional e internacionalmente são esquecidas, quando ele diz que o futebol feminino só aparece internacionalmente em 1996. Enfim, é muito fácil esquecer quem “ralou”, quem “comeu o pão que o diabo amassou”, para sacramentar as vitórias. Daí a importância ainda maior do trabalho de Enny, realizado  através de histórias de vida, que retratam o sofrimento e as alegrias das jogadoras.

             Do começo nos babas de pés descalços, brincando entre os meninos, chamadas de sapatonas, “mulher-macho” , muitas vezes até mesmo entre os membros da família.  Relatos dramáticos, algumas vezes de muita dor escondida. Uma figura torna-se emblemática para o futebol feminino em Feira de Santana: Edmilson Amorim,  “seu Michelinho”, dono do Flamengo de Feira. Descobridor de talentos,  forma um time ´campeão,, mantido por seus recursos e à proporção que as vitórias e o público vão aparecendo, obtém o apoio do comércio e mesmo da Prefeitura. “Conhecidas”, “famosas”, já não são xingadas nas ruas e sim admiradas. Elas são o “pibe” argentino, pobres, precisando ajudar a família; sem salário no Flamengo, o recurso das talentosas é a Rodoviária para Salvador ou o Aeroporto para São Paulo. E aí aparece a história de vida de Solange, a “Soró” (de Luciano do Vale) que é convocada para a Seleção Brasileira, após testes em Salvador.  Com baixa auto-estima, sem roupas adequadas para a viagem, ainda encontrou um inesperado primeiro percalço: as companheiras baianas convocadas, sem avisa-la,  viajaram para o Rio a deixando sozinha para a viagem. Percebeu ali que teria que andar com as próprias pernas.

           E como andou. A sua auto-percepção inicial: nordestina, do interior, sem roupas adequadas e com os dentes estragados, só podia ser discriminada. Mas, aí ocorre, para ela, o inesperado, a atenção e o apoio redobrado da equipe técnica e física da seleção. Aparece com forca a subjetividade da jogadora, enriquecendo em muito o trabalho. Pensava em desistir, comia como uma leoa – descontando a fome de casa – acreditava que ia ser cortada e quando viu o seu nome entre as classificadas para a permanência, disse que estava com saudade da família e ia voltar para Feira de Santana. Mas, não era o seu destino voltar: aconselhada e amparada pela comissão técnica e algumas amigas, permaneceu. A partir daí se integrou no grupo, mostra as tensões e as brincadeiras para aliviar o clima. É hilariante o caso de sua colega compulsória de quarto, que usava cuecas.

As tentativas infelizes da imprensa que, pensando ajudá-las, as transformava em Globelezas.

Foram vencedoras do Primeiro Campeonato Sul-Americano, ocorrido em 1991, classificatório para a Copa do Mundo, na China.  Voltou a Feira de Santana, após a vitória e com o “bicho” recebido comprou uma televisão para a mãe. Retornou a Seleção e reiniciaram uma longa jornada de treinos na Granja Comari, em Teresópolis, para a preparação para o Mundial na China. Seria para sorrir, se não fosse trágica, a tentativa de fazer a adaptação ao fuso horário no Brasil.  Uma burrice e loucura e tudo isso para poupar uma semana de hotel e diárias na China.  Desgastadas fisicamente, as americanas, chinesas, suecas, passavam voando por elas. Das doze equipes participantes, o Brasil ficou em nono lugar.  Com a seleção desprestigiada, desarmada, ela, graças ao financiamento de uma multinacional, veio jogar futebol de salão na Bahia. No campeonato nacional em 1992, a Bahia venceu São Paulo na final.  As criticas das atletas  à CBF são constantes e contundentes, pelo descaso, até em relação à arbitragem.

            Em 1994, a seleção se reuniu novamente para disputar o Segundo Campeonato Sul-Americano, classificatório para o Mundial na Suécia. Fato inédito: a Seleção tinha a Maizena como patrocinadora. Era o grupo de 1991, com pequenas adições, e mais experiente. Contudo, a cobrança era intensa por parte da comissão técnica e dirigentes. Isso evidentemente gerava grande tensão e intranquilidade no grupo. Além da Maizena, juntou-se a Sport Promotion e, em especial, o apoio da TV Bandeirantes, através de Luciano do Vale. Ele foi fundamental para que as garotas permanecessem sonhando com a profissionalização real e melhores condições de trabalho e salários. Venceram novamente o Sul-Americano, entretanto, no Mundial ficaram novamente, em 1995, no nono lugar.  Apesar de tudo isso, as críticas à CBF não paravam. O próprio técnico Ademar Júnior disse que um dos principais obstáculos era a ausência de informações sobre as adversárias. Imagine a pergunta de um jornalista para Pretinha se ela tinha carro: “Ninguém tem (carro). A gente se encontra no centro do Rio para pegar o ônibus 401 para ir ao campo de treino do Bradesco que fica no bairro da Tijuca”.        

          Já em 1996, pela impossibilidade da Inglaterra participar da Olimpiadas de Atlanta, o Brasil a substituiu e se classificou em quarto lugar, daí a CBF declarar ter sido a sua primeira participação internacional. Como afirma, Solange, perdemos por 1X0 para a China por puro descontrole emocional.

            Solange foi para o Corintians e, pela insegurança financeira e pressão da direção do time paulista, não foi ao Mundial de 1998, embora tenha sido uma das poucas veteranas convocadas. A reconstrução da casa da família foi mais importante. Como perderam a final do campeonato o time foi dissolvido. Foi para o Internacional de Porto Alegre, mas discriminada, “comeu banco” todo tempo, voltou e integrou-se ao Palmeiras. No fundo, era o final da carreira, sobretudo pela idade, embora ainda tenha permanecido em torno do futebol até 2007.

           Como a maioria dos jogadores do futebol masculino do passado ( e mesmo do presente), nenhuma delas  teve ganhos financeiros que as permitissem ter uma vida razoável.  Permanecem trabalhadoras, muitas com grandes dificuldades.  O que todas sabem é da importância do futebol para suas vidas, do respeito e credibilidade que atingiram, além das amizades e alegrias que só o futebol proporciona. Porém,  o fundamental é que foram elas, invisibilzadas, que construíram, com muito suor e lágrimas, as bases para  as atuais conquistas do futebol  feminino brasileiro.

 

Jeferson Bacelar

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