O Quilombo está na Mesa

     Eduardo Alfredo Morais Guimarães é o autor da tese de Doutorado, O Quilombo está na Mesa: estudo etnográfico da comunidade quilombola de Empata Viagem, município de Maraú/Bahia, realizada na Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia. É uma tese que se situa entre o campo da Antropologia Política e da Antropologia da Alimentação, fruto de amplo trabalho de campo. É uma pesquisa onde a sua identificação com os quilombolas, é um plano nítido do papel que assume em Empata Viagem e circunvizinhanças. Daí, a presença visível na sua escrita, dos hóspedes não-convidados, segundo Da Matta, ou seja, a emoção e o sentimento. O que aliás condiz com a sua militância ecológica e política.

Como ele próprio afirma, a centralidade da pesquisa foi compreender as interfaces entre cacau, mandioca, commodity, abastecimento alimentar e a mesa dos quilombolas. Fica explicito desde o início as suas posições teóricas e políticas, na reação ao mito de uma aristocracia agrária empreendedora, que teria construído sua riqueza sem a presença do trabalho escravo. Mas, se ele mostra o passado é porque existe uma complexa inter-relação com a sua luta atual contra o avanço do agronegócio e da “modernidade” técnica nas terras quilombolas.

Historicamente, antes do cacau, a região se firmou como resultado da pressão da empresa colonial portuguesa para a expansão da produção de farinha, transformada em mercadoria para servir o mercado interno ou mesmo, apesar das proibições, para atender o tráfico atlântico. Elemento da culinária indígena, transformou-se também em alimento imprescindível ao abastecimento alimentar dos africanos e crioulos, sendo por sua incorporação ao paladar local um marco definidor de fronteiras, um traço diacrítico da sua lógica cultural.

Faz história e da boa, ao mostrar de forma crítica, o percurso para a construção da “nova” identidade quilombola, que abala quadros de referências que davam aos indivíduos uma ancoragem estável. Daí, ser essa identidade aberta, inacabada e contraditória. Não aparece como novidade, uma vez que os próprios sujeitos apresentam variações intra- individuais, marcadas pela heterogeneidade, como salienta Lahire. Enfim, as identidades são sempre dinâmicas e constituídas historicamente.

Avança para demonstrar o seu conhecimento técnico sobre o sistema agrícola nas suas diferentes formas. Segundo Guimarães, nas Agroflorestas de quase tudo, os habitantes locais, simplificando, cultivam a mandioca- o produto fundamental – mas também o cacau, consorciados com hortaliças, cereais, espécies frutíferas nativas e exóticas, centenas de espécies de vegetais e animais: a diversidade é a sua base de sustentação. Esse mosaico permite e promove a biodiversidade, promove a segurança alimentar e nutricional, além de garantir um aumento na produtividade do cacaual.

Contrapondo-se a essa formulação, como veremos adiante, o autor remete especificamente à história do cacau, que a partir do final século XVIII, torna-se o grande referencial histórico-cultural da região Sul da Bahia, com grandes empreendimentos agrícolas que contaram com mão de obra escravizada africana e indígena. Sem entrar nos detalhes, o que ficou foi a presença do Brasil, já no final do século XIX, como um dos maiores exportadores de cacau do mundo. No século XX, aparece o projeto de “Conservação Produtiva”, desenvolvido com a participação de técnicos da CEPLAC, baseado no plantio do cacau em cabrucas. Segundo os defensores do projeto, uma verdadeira revolução ambiental, com os cacaueiros cultivados sob a sombra das árvores nativas da Mata Atlântica: o Sistema Agroflorestal Cacau Cabruca. Guimarães desmonta ponto por ponto os seus elementos básicos: não há interação entre os elementos que compõem o sistema; roçadas periódicas mantem a regeneração natural em níveis baixos; as limitações do modelo monocultural da agricultura de exportação, tornam uma falácia atribuir ao Cacau Cabruca o mérito de manter a Mata Atlântica e sua diversidade; a exigência de quantidades cada vez maiores de água e adubação, e mesmo de pesticidas e fungicidas para se proteger de inimigos que ele mesmo está destinado a atrair. Não demorou a aparecerem as crises, devido aos preços no mercado internacional, a baixa produtividade, os custos elevados de produção e a ausência de tecnologias adequadas de cultivo. E, para completar veio a epidemia da Vassoura de Bruxa.

O terceiro sistema é um produto do CEPEC, um centro de pesquisas responsável pela criação de uma “tecnologia agrícola de Primeiro Mundo”, sendo os seus resultados disseminados pela CEPLAC, a partir de 1964. Com seus percalços, seria lançada em 1974, a Revolução Verde, que chegou efetivamente ao quilombo. E foi uma revolução mesmo, na medida em que ampliou a cobiça sobre as terras quilombolas, mas também, aparentemente, abriu novas perspectivas para as famílias agricultoras que se dedicavam basicamente ao cultivo da mandioca. Como salienta o autor, tal revolução possibilitou que o cacau, até então confinado aos boqueirões e às margens dos córregos passasse a ser cultivado também em “terras de mandioca”, solos secos, pobres e ácidos. Assim, as novas tecnologias proporcionaram a valorização das terras do quilombo, tornando-as cada vez mais alvo da cobiça de grandes empresas agrícolas, além de aumentarem, de maneira exponencial, a dependência das famílias quilombolas dos insumos agrícolas atrelados ao pacote tecnológico desenvolvido pelo CEPEC: fertilizantes industriais e agrotóxicos, cotados em dólar. Ressalta ainda que, no contexto da expansão dos cultivos de cacau, outras monoculturas de exportação, passaram também a compor o mosaico de paisagens locais, especificamente a seringueira e a macadâmia, uma noz de origem australiana.

Será nesse cenário, de confronto e desdobramentos, que aparecerão, com realce, os seus protagonistas, os quilombolas. E será com gente de “carne, osso e sangue correndo nas veias”, que Eduardo nos mostrará a exploração, a grilagem, as trapaças, a assimilação de uns poucos quilombolas, mas, com ênfase a luta de um povo para sobreviver diante da modernidade e das forças de opressão, resistindo para manter sua lógica cultural. Assim, passando por cima de muita coisa, chegamos ao quilombo na mesa.

Em Empata Viagem, de forma geral, a alimentação aparece em três espaços: 1) a cozinha moderna no interior da casa, onde aparece o fogão a gás, o liquidificador e a geladeira. Eu diria que são marcas de distinção, antes que elementos utilitários no cotidiano. O fogão a gás e o liquidificador, somente são usados em situações especiais. A geladeira é o eletrodoméstico mais importante para o grupo familiar. Ela é uma espécie de “caixa mágica”, pela mudança no design das casas, pela conservação de alimentos e pela água gelada. Porém, poucos produtos ficam na geladeira, sua grande função está na transformação da água natural em gelada ou gelo; além disso, ela conserva um novo elemento presente na culinária local: o suco artificial; 2) a cozinha do fogão a lenha, situada em um cômodo à parte, fora do corpo principal da casa. Nela, o fogo nunca se apaga e é “onde se faz quase tudo”. Ela é a despensa, onde se cozinha os alimentos, onde se come e onde as pessoas passam a maior parte do tempo. Como o ritmo da cozinha é ditado ela rotina da roça e dinâmica da vida familiar, o “de comer” está pronto desde as primeiras horas da manhã. Assim as refeições se sucedem ao longo de todo dia e em qualquer lugar que o comedor deseje. A “mesa” está em qualquer lugar. Quando o pesquisador chegava era sempre agraciado com um pedaço de carne de porco, de paca, de caititu, de galinha caipira, de tatu assado na brasa, acompanhados invariavelmente por farinha ou farofa d´água. Essa é a comida em geral, que poderíamos chamar, em nosso termos, de almoço ou jantar. Digo isso porque não deixa de haver um desjejum ou café da manhã, ou seja, o café preto, sem leite, a banana cozida, o inhame, a batata doce, o aipim, e o beiju da massa da mandioca, tudo tirado da roça. Mas, isso não impedia a presença do biscoito Poca Zói, e em situações especiais o biscoito Cream Cracker. O pão, que não é feito pelos moradores, é considerado uma bela iguaria, comprado aos sábados na feira. Ele é tão importante que muitas vezes eles são o presente de visitantes. Há ainda uma profusão de frutas, como laranjas, tangerinas, jacas, jabuticabas, ingás, goiabas, cajás, jambos, “mel de cacau”, cajus, amêndoas de sapucaia e uma infinidade de vegetais importantes no abastecimento alimentar. As frutas são comidas pelas crianças a qualquer hora, e no intervalo das jornadas de trabalho, pelos adultos. As riquezas da flora e da fauna não são vistas como mercadorias, mas sim como elementos fundamentais para o abastecimento familiar, além da sua condição de dádiva, circulando entre os vizinhos, pautadas na troca generosa e solidária. Como diz o autor, são “coisas que não se planta e só se desfruta”, longe dos anseios do mercado, sempre uma apropriação em pequena escala dos recursos naturais. 3) a casa de farinha, local onde é processada a mandioca e produzida a “farinha do prato” - o alimento de base do quilombo – e ao beiju. Que vão também ao mercado.

Do começo ao fim do trabalho, fica explicita a inquietação do autor com a invasão das terras quilombolas, pelo cacau e outras commodities, amparada pelo poder local ou internacional. Isso gera a diminuição do cultivo da mandioca, entretanto, fica patente a resistência cultural do Empata Viagem, o lugar dos descendentes da Velha Honória e “onde tudo era mandioca”. Um confronto se estabelece, de um lado, a mesa antropofágica do mercado de cacau e “de quase nada”. E, por outro lado, a mesa quilombola da farinha de mandioca e “do quase tudo”. Outro aspecto que poderia assustar os puristas ou arautos da autenticidade, é a presença de inovações tecnológicas, quando na realidade, eles não querem abrir mão desses produtos, pois não vivem no passado. Como diz Sahlins, ao demonstrar a importância da cultura, é que eles querem utilizá-las para seus próprios fins, mantendo uma indigenização da modernidade. Por que não?

Um trabalho provocativo, com larga documentação fotográfica, onde o autor nos conduz a pensar sobre os rumos dos quilombolas e do campesinato brasileiro. E, para concluir, uma questão ficará no ar: qual o impacto na realidade observada com a atual industrialização do cacau na própria região, no Sul da Bahia?









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