quarta-feira, 24 de maio de 2017

COMIDA E MEMÓRIA OU COMENDO COM OS GREGOS EM KALYMNOS

      Já há algum tempo li um livro que gostei muito tratando de comida e memória. Pensei em fazer uma resenha, mas o tempo foi passando e outras obrigações impediram-me a realização de tal feito. Agora, resolvi fazer algumas anotações sobre o exemplar, denominado Remembrance of Repasts. An Anthropology of Food and Memory  (Oxford-New York: Berg, 2001 ), de David Sutton. O livro é uma extensão do trabalho de pesquisa realizado pelo autor na ilha de Kalymnos, na Grécia, em 1998. Tem início com uma introdução denominada Uma antropologia Proustiana?, seguida dos capítulos: O ritual e o cotidiano; Lembrando de presentes, esquecendo de mercadorias?; Memória sensorial e a construção de mundos; Refeições memoráveis; Fazendo/Lendo o cozinhar e a conclusão intitulada Recapturando a refeição.
     O trabalho na sua Introdução faz uma revisão crítica da questão da comida e da memória, utilizando-se de autores que renovam os paradigmas vigentes, vendo a forma que as sociedades dividem os trabalhos sobre os sentidos diferencialmente, “fazem o sentido do mundo”, criticando o bias visualista que tem dominado as sociedades ocidentais. Sutton estabelece que, em momentos de revitalização da memória de migrantes gregos, quando o passado torna-se presente, e em fases de lembrança prospectiva, quando o futuro emerge com o passado, ou mesmo na cozinha nostálgica, em que a comida processada é recolocada como uma refeição imaginária, “realmente real”, a comida oferece alguns dos maiores pontos de pontos de entrada no quotidiano dentro da experiência de mistura de temporalidades.
     Nos dois primeiros capítulos, o tópico da generosidade com a comida, implica na abordagem da interessante questão teórica concernente à memória e a troca. A comida internaliza débitos e  os repetidos atos de generosidade geram amizades e memorável reputação em Kalymnos. Uma preocupação atravessa o livro: o aumento do fluxo internacional de alimentos e as pessoas que os comem, e o que a globalização pode significar para a mudança das praticas da memória da comida. Se uma das questões importantes da antropologia é como a globalização reconfigura identidades e experiências, a memória da comida nos oferece numerosos pontos de entrada nesse tópico. Exemplificando, o autor diz que produtos locais tornam-se parte de circuitos globais de troca entre a “casa” e a vida de migrantes transnacionais; enquanto produtos estrangeiros, como o queijo Roquefort, são identificados como componentes das especialidades dos kalyminianos e parte das relações sociais locais, como quando um homem usa esta mercadoria como um protesto contra a qualidade do queijo produzido pelos vizinhos.
     Um antropologia atenta à experiência sensorial, como diz o autor, tem muito a nos dizer  sobre o evocativo poder da memoria da comida, ao mesmo tempo que desafia a estrita dependência à interpretação simbólica ou semiótica. Memórias do gosto e do cheiro, por sua natureza tenderão a ser idiossincráticas, associadas ao acaso, como oposta aos símbolos que podem ser mais cognitivamente coletivos. Mas, isto não significa que a memória do gosto e do cheiro não são iluminadas por campos associativos, em que eles são aprendidos e experimentados, consoante a geração, o gênero, a classe e a etnia.
     Adiante, ele aborda diferentes perspectivas recorrendo à “mesmidade” e à diferença, a continuidade e a mudança, o oral e o escrito, a tradição e a modernidade, em relação à estrutura das refeições e o processo de aprender/fazer comida. Comparando e contrastando sua etnografia dos kalyminianos com as pesquisas feitas nos USA, David Sutton ressalta a produtividade da noção de memória e que existem muitas diferentes formas estruturadas culturalmente em termos de práticas de alimentação, refletindo diferentes consciências históricas. Ele argui contra o uso simplório da dicotomia de “comunidades tradicionais fechadas” e “sociedades, abertas, modernas”; antes, ele tem tentado mostrar a extensão de “seguir a tradição”,  envolve escolhas, reflexões e variações. E também demonstrar que a extensão de “fazer sua própria escolha” significa uma prescrição culturalmente imposta, com implicações para a espécie de  memória da comida que será reproduzida na sociedade, sob a persuasão de uma ideologia da modernidade.
     Mordaz, traz à consideração a “mercantilização da nostalgia”, parte da estratégia de festivais étnicos, que muitas vezes tem a sua gênese na economia. Não esquece da “memória da fome” entre os kalyminianos durante a Segunda Guerra Mundial. De forma provocativa, ele percebe o desdém para o passado culinário na cultura popular dos USA. Então, esquecer é um problema, que implica em análise, daí levantar a questão: pode haver um papel produtivo para o esquecimento das comidas do passado?
        Muito mais ele analisa e problematiza; concluindo coma necessidade de mais etnografias, que comecem da premissa que comida não é simplesmente outro tópico que “simboliza” identidades, mas um campo que nos desafia repensar nossos métodos, concepções e teorias em novas e produtivas formas.

         Quando comecei disse que já havia lido há tempos o livro de David Sutton, daí que escrever sobre o mesmo foi provocado pelo excelente artigo de Ellen Woortmann, Memória Alimentar: prescrições e proscrições, no livro Ensaios sobre a Antropologia da alimentação: saberes, dinâmicas e patrimônios, organizado pela própria Ellen e Júlia Cavignac, sendo editado pela ABA Publicações e Edufrn, 2016, PDF; 12 MB.

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